11 de setembro de 2026
Comidas típicas de Curitiba: conheça a origem das tradições que chegaram à mesa curitibana
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Quando pensamos em Curitiba, algumas imagens aparecem quase automaticamente: os parques, as araucárias, o frio, as estações-tubo e a forte influência dos imigrantes europeus.
Mas existe outra maneira bastante interessante (e saborosa) de conhecer a história da cidade: pela comida.
A gastronomia curitibana não nasceu de uma única tradição. Ela é resultado de diferentes povos, épocas e costumes que foram se encontrando na capital paranaense. Há ingredientes consumidos antes mesmo da chegada dos europeus, receitas trazidas por poloneses, alemães e italianos e pratos que foram efetivamente criados ou transformados dentro da própria cidade.
Por isso, entender o que Curitiba come também é uma forma de entender como Curitiba se formou. Conheça algumas das comidas mais ligadas à identidade curitibana e descubra de onde surgiu cada tradição.
Carne de onça: um dos pratos mais curitibanos que existem
Apesar do nome curioso, não há qualquer carne de felino na receita.
A tradicional carne de onça é preparada com carne bovina crua e moída, normalmente servida sobre uma fatia de broa de centeio e coberta com bastante cebola, cebolinha e temperos.

Sua história está ligada tanto à influência germânica quanto à cultura dos bares de Curitiba. O prato tem semelhanças com preparações alemãs à base de carne crua, como o Mett e o Hackepeter. Em Curitiba, no entanto, ganhou características próprias.
Uma das versões mais difundidas sobre sua origem leva aos anos 1930 e 1940 e ao antigo Bar Toca do Tatu, ligado ao Britânia Sport Club. Depois das partidas de futebol, jogadores consumiam carne bovina crua sobre broa com cebola e temperos.
O curioso nome também tem mais de uma explicação. Uma delas conta que um jogador teria brincado dizendo que aquela carne era tão bruta que “nem onça come”. Outra relaciona a expressão ao famoso “bafo de onça” deixado pela quantidade de cebola.
Independentemente da versão, o prato atravessou décadas e tornou-se parte da cultura dos bares curitibanos. Em 2016, foi reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial da cidade e, em 2025, recebeu do Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) a Indicação Geográfica de Procedência Carne de Onça de Curitiba.
Ou seja: mais do que uma comida popular, a carne de onça passou a ter sua relação com Curitiba oficialmente reconhecida.
Broa de centeio: mais de 150 anos de história
Se a carne de onça é curitibana, o pão usado para servi-la também merece destaque.
A broa de centeio de Curitiba está presente na cidade há mais de 150 anos e chegou principalmente com os imigrantes da Europa Central e Oriental no final do século XIX.

Poloneses, alemães, russos, bielorrussos e ucranianos já tinham tradição no cultivo e no consumo do centeio e trouxeram seus métodos de panificação para as colônias da região de Curitiba.
A receita, porém, não permaneceu exatamente como era na Europa.
Entre as décadas de 1920 e 1940, dificuldades no abastecimento e o racionamento do trigo contribuíram para adaptações. A broa curitibana passou a combinar trigo e uma alta proporção de centeio, além de abandonar ingredientes encontrados em receitas de outras regiões, como milho e batata.
Esse processo criou um modo de fazer característico da cidade.
Em 2025, a broa de centeio foi reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial de Curitiba. Ela também possui Indicação Geográfica registrada no INPI.
É um bom exemplo de como uma tradição trazida de outro continente pode se adaptar tanto a um lugar que passa a fazer parte de sua identidade.
Polenta, frango e risoto: a Curitiba italiana de Santa Felicidade
Poucos bairros brasileiros têm uma identidade gastronômica tão forte quanto Santa Felicidade.
A região começou a tomar sua forma atual em 1878, com a chegada de famílias italianas, principalmente do Vêneto e do Trentino. Inicialmente, esses imigrantes dedicaram-se à produção de queijos, vinhos e hortaliças.
Décadas depois, a localização do bairro ajudaria a transformar a comida doméstica em negócio.
Por volta dos anos 1940, a atual Avenida Manoel Ribas era uma importante passagem de colonos, caminhoneiros e viajantes. Algumas famílias começaram a recebê-los em casa para servir refeições. O movimento aumentou e, a partir das décadas de 1950 e 1960, surgiram restaurantes que ajudariam a transformar Santa Felicidade em um dos polos gastronômicos mais conhecidos de Curitiba.
Massas, risotos, frango e polenta passaram a dominar as mesas.
Só que existe uma curiosidade: vários pratos hoje apresentados como tradicionais de Santa Felicidade não são simplesmente receitas italianas copiadas da Europa.
Uma pesquisa antropológica publicada pelo Museu Paranaense mostra que preparações como o frango prensado, o risoto de miúdos e a polenta frita foram modificadas ou consolidadas localmente ao longo do tempo. Dessa forma, ajudaram a criar uma culinária ítalo-curitibana própria.
Santa Felicidade mostra bem como uma tradição pode nascer da imigração e, algumas gerações depois, já pertencer também à cidade que recebeu esses imigrantes.
Torta Martha Rocha: um doce criado em Curitiba
Nem só de pratos salgados vive a gastronomia curitibana.
A Torta Martha Rocha nasceu em Curitiba, em 1954, em homenagem a Maria Martha Hacker Rocha, primeira Miss Brasil e segunda colocada no concurso Miss Universo daquele mesmo ano.

A criação é atribuída à confeiteira Dair da Costa Terzado, proprietária da tradicional Confeitaria das Famílias.
Com camadas e recheios variados, que costumam incluir pão de ló, creme, suspiro, crocante de nozes, frutas e chantilly, a torta tornou-se presença frequente em confeitarias e comemorações familiares.
Setenta anos depois, a receita continuava suficientemente ligada à identidade local para ganhar novos reconhecimentos. A Torta Martha Rocha foi declarada Patrimônio Cultural Imaterial do Paraná e, em março de 2026, Curitiba realizou o primeiro festival gastronômico inteiramente dedicado ao doce.
É talvez a prova mais doce de que Curitiba também sabe criar suas próprias tradições.
Pierogi: a Polônia que encontrou uma nova casa em Curitiba
Curitiba recebeu uma expressiva imigração polonesa a partir do século XIX, e essa presença permanece evidente na arquitetura, nas festas, nos costumes e, é claro, na gastronomia.
Um dos exemplos é o pierogi.

Originário da Polônia e de outros países do Leste Europeu, ele é uma espécie de pastel de massa cozida que pode receber recheios como batata, queijo, repolho ou carne.
A receita não nasceu em Curitiba, mas passou de geração em geração entre famílias descendentes de poloneses e continua presente nas festas, feiras e restaurantes da cidade.
Nas feiras gastronômicas municipais, por exemplo, a Prefeitura registra comerciantes que mantêm receitas familiares e técnicas tradicionais de preparo do pierogi.
É um prato que ajuda a explicar por que a gastronomia curitibana é tão marcada por diferentes sotaques.
Pão com bolinho: a comida de boteco que Curitiba adotou
Há também tradições cuja origem exata é mais difícil de localizar.
É o caso do pão com bolinho.
A ideia é simples: um pão recheado com bolinho de carne moída, normalmente acompanhado por ingredientes como queijo, maionese e cheiro-verde.
Não há documentação suficientemente consistente para apontar um único estabelecimento ou uma pessoa como responsável por sua criação. O que não deixa dúvidas é o espaço que o sanduíche conquistou na cultura dos bares de Curitiba.
O Instituto Municipal de Turismo o define como uma comida de boteco tradicional da cidade, presente em inúmeros estabelecimentos e com receitas que variam bastante.
A paixão cresceu tanto que Curitiba ganhou um Festival do Pão com Bolinho, com dezenas de bares e restaurantes criando suas próprias versões do lanche. Em uma das edições, mais de 50 estabelecimentos participaram.
Pode ser difícil encontrar seu inventor, mas não é difícil entender por que o pão com bolinho entrou para o imaginário gastronômico curitibano.
Pinhão: uma história que começou muito antes dos imigrantes
Falar da comida de Curitiba apenas a partir da imigração europeia deixaria de fora uma parte fundamental dessa história.
Muito antes da chegada de alemães, poloneses ou italianos, os povos indígenas que habitavam o território paranaense já conheciam e consumiam o pinhão, a semente da araucária.

Depois, o ingrediente também passou a fazer parte da alimentação de tropeiros e das populações que ocuparam a região.
Por isso, diferentemente da carne de onça ou da Torta Martha Rocha, o pinhão não pode ser considerado uma invenção curitibana. Ele pertence a uma tradição regional muito mais antiga.
Ainda assim, sua relação com Curitiba é evidente. A própria paisagem da cidade foi historicamente marcada pelas araucárias, e o pinhão continua aparecendo em festas, receitas e festivais gastronômicos.
É provavelmente a tradição alimentar desta lista que nos leva mais longe no passado.
No fim, qual é a verdadeira comida de Curitiba?
Talvez não exista uma resposta única, e justamente aí está a graça!
A gastronomia de Curitiba é parecida com a própria cidade: formada por encontros.
O pinhão lembra os povos que estavam aqui antes da formação da capital. A broa e o pierogi contam histórias dos imigrantes do Leste Europeu. Santa Felicidade mostra como famílias italianas adaptaram seus costumes e criaram uma nova tradição. A carne de onça nasceu da combinação entre influências estrangeiras e a vida dos bares curitibanos. O pão com bolinho representa a cultura do boteco. E a Martha Rocha prova que algumas receitas simplesmente nasceram aqui.
Por trás de cada prato existe, portanto, muito mais do que uma receita.
Existem bairros, famílias, movimentos migratórios, partidas de futebol, antigas confeitarias, restaurantes que atravessaram gerações e costumes que foram sendo transformados com o passar do tempo.
E talvez seja justamente por isso que conhecer a gastronomia de Curitiba seja também uma das formas mais interessantes de conhecer a própria história da cidade.
Imagens retiradas da Prefeitura de Curitiba
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